Como me sinto em ter deixado o Brasil.

Muitos têm a vontade de sair do Brasil, de tentar uma vida nova, mas o medo do desconhecido e o pensamento pessimista fazem pessoas desistirem dos seus sonhos. Todos podem, muitos querem, mas poucos realizam. Por que?

Sempre me perguntam se eu não sinto saudade do Brasil e das pessoas que deixei. Pensar nesse assunto não vai ajudar a tomar uma decisão tão séria e, muitas vezes, sem volta. É preciso encarar esse lado “negativo” de uma mudança de vida de forma natural. Faz parte do processo deixar para trás coisas e pessoas. Não existe decisão fácil e, muito menos, que não tenha ônus.

Quem deixou o Brasil em busca de uma vida melhor, não é melhor do que quem não teve essa coragem. Apenas acreditou que seria capaz e colocou em prática um sonho que, para muitos, é uma loucura.

A vida é feita de escolhas, abdicação, dúvidas. A decisão de ir embora ou de ficar não é fácil. Ambas irão te fazer perder o sono. Decidir ficar no Brasil também não é errado, faz parte do planejamento e cada um sabe seu limite e até onde está disposto a arriscar para ter uma vida nova.

É preciso refletir o que se ganha e o que se perde ao deixar o Brasil. Saber o que se quer, aonde quer chegar e focar em um planejamento financeiro, emocional, acadêmico, profissional. Esse é o caminho para ter segurança e paz.

Uma decisão dessas não se toma de forma impulsiva. São meses pensando e refletindo até decidir e, depois, meses planejando e arrumando a viagem.

Sempre sonhei com uma estabilidade para mim e minha família e eu tinha. Ser concursada no Brasil é um alívio diante de tanto desemprego, mas eu queria mais, muito mais. A garantia de um salário no final do mês e um plano de saúde é muito pouco e está longe de ser garantia de qualidade de vida.

O que adianta um salário se não temos como gastar? Para que ter um carro se não podemos sair de casa? Afinal, no Brasil estamos cada dia mais presos. Comecei a pensar só nas coisas ruins, afinal, precisava decidir sair do país e as coisas boas só iam me fazer perder a coragem de largar tudo. Por isso, pense na corrupção, insegurança, falta de saúde, escolas caras, desrespeito ao consumidor, cidades sujas, inflação…

Quando saia com meu filho, morria de medo de sequestro; se saia à noite, tinha pavor em pegar um sinal fechado; se uma moto ficava ao lado do carro, tinha vontade de acelerar. Andar de vidro aberto? JAMAIS. Usar uma corrente de ouro? JAMAIS! Andar na rua passeando? JAMAIS!

Vivia um pânico constante, apavorada, em alerta de que algo de ruim poderia acontecer a qualquer momento com meu filho, ou então comigo e eu não veria meu filho crescer e ele não teria o amor da mamãe.

Outro fator que pesou muito foi o econômico. Nos matamos de trabalhar, horas extras abusivas, assédio e, mesmo assim, não conseguimos realizar nossos sonhos de consumo. Na Nova Zelândia, um casal que cada um ganhe o mínimo, consegue morar em uma casa legal, ter um carro legal e o poder de consumo maior do que muito médico no Brasil.

Quando refletia sobre esses problemas, qualquer estabilidade empregatícia e financeira se tornavam insignificantes. Merecemos muito mais do que um salário na conta, no final do mês. Merecemos liberdade, dignidade e, realmente hoje, na minha opinião, o Brasil não oferece isso.

Vim em busca de uma vida melhor, mesmo que seja com um emprego mais simples, numa casa menor, começando do zero. Mas poder ir e vir sem medo, meu filho crescer livre em parques, andar de vidro aberto, isso não tem preço!

Na vida corrida que estou levando, esqueço de refletir e agradecer por estar aqui. Tudo aconteceu muito rápido e hoje, atolada de trabalho, me pergunto se é isso que quero.

Claro que sim! Não vim em busca de vida mole, ficar rica, trabalhar pouco. Vim em busca de trabalhar duro, trabalhar que nem uma louca de manhã, tarde, noite, madrugada, finais de semana e, assim, pagar com alegria, cada centavo de imposto.

Vim em busca de um governo que me dê retorno no imposto que pago.

Tinha um sonho simples e humilde. Eu só queria segurança, todo resto seria lucro.

Aqui a vida está longe de ser fácil. Realmente, temos que lutar muito. Começar do zero é muito mais complexo do que planejamos.

Quando penso que, quando cheguei, não tinha um garfo, uma casa, um emprego. Saí do Brasil, apesar de muito planejamento, sem saber em quanto tempo algo iria acontecer.

Acredito que o que faz a diferença é acreditar que vai acontecer. Que nós podemos fazer acontecer e, se deu certo comigo, pode dar certo com você. Você escreve sua história.

Sei que nem todos têm essa coragem, às vezes até eu acho que é uma decisão louca. Mas, quem é certo nesse mundo?

Louco é estar aqui ou estar no Brasil, um país sem perspectiva e violento?

Louco é estar aqui ou ficar no Brasil, por medo de mudar?

Fácil não é e nem vai ser. Compensador? Isso, SIM!

Em resumo, me sinto uma vitoriosa por estar aqui. Por ter montado minha casa de uma forma simples e humilde, com várias coisas de segunda mão. Por ter comprado um carro usado e velho; por andar de ônibus no frio, na chuva; por meu filho estudar em uma escola pública.

Me sinto orgulhosa de, aos 35 anos, ter falado SIM para o meu sonho e falaria SIM milhões de vezes.

Não vivo um conto-de-fadas, não vivo uma vida fácil, mas vivo uma vida digna e isso não tem preço.

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